A candidatura de Augusto Cury à presidência gerou reações imediatas e acaloradas nos dois lados do espectro político. Mas por que um escritor de autoajuda, conhecido por suas obras sobre inteligência emocional, causa tanto incômodo a direita e a esquerda?
A busca pelo centro como ameaça à polarização
Cury construiu sua carreira literária abordando temas como ansiedade, saúde mental e desenvolvimento pessoal, sem qualquer vínculo com ideologias partidárias. Sua entrada na política representa, para muitos, uma tentativa de romper com o binômio “direita versus esquerda” que domina o debate nacional.
Em sua defesa do semipresidencialismo e na escolha de Tarcísio de Freitas como possível primeiro-ministro, Cury demonstra uma visão pragmática que incomoda . Ele não se alinha completamente a nenhum campo: ao mesmo tempo em que flerta com um nome da direita liberal (Tarcísio), mantém um discurso de conciliação e “governo humanitário” que agrada a eleitores descontentes com ambos os lados .
A reação dos extremos
Os extremos veem em Cury uma ameaça por diferentes razões:
- Para a esquerda: A proximidade com Tarcísio de Freitas e o discurso de reforma institucional soam como um movimento para enfraquecer o projeto de reeleição de Lula e desidratar o campo progressista .
- Para a direita mais radical: Cury é visto como um “outsider” que pode dividir votos com candidatos como Flávio Bolsonaro, mas sem o compromisso com pautas conservadoras, diluindo o capital político acumulado pela direita.
- Para ambos: O discurso de “pacificação” de Cury soa como uma crítica velada ao tom beligerante que domina a política brasileira. Ao defender a “inteligência socioemocional” e a “centralidade” , ele expõe a falta de diálogo e o radicalismo que afastam muitos brasileiros da política tradicional.
Minha análise
A candidatura de Augusto Cury é sintomática de um fenômeno mais amplo: o cansaço da população com a polarização extrema e a busca por alternativas que fujam do maniqueísmo. Sua rejeição pelos extremos não é casual — ela reflete exatamente o que ele representa: uma tentativa de construir um projeto de nação baseado em competência técnica e gestão, e não em trincheiras ideológicas.
Cury incomoda porque, ao se recusar a ser enquadrado como “direita” ou “esquerda” , ele obriga os extremos a confrontarem sua própria incapacidade de dialogar com quem pensa diferente. Resta saber se esse discurso de conciliação encontrará eco nas urnas ou se será mais um capítulo na longa história do fisiologismo político brasileiro.

